quarta-feira, julho 25, 2007

Anota aí.

Maria Lúcia, ou apenas Malu como todos conhecem, tinha listinha pra tudo. Num caderninho de brochura simples que ela carregava na enorme bolsa de veludo, enumerava página por página todas as listas que regulavam sua vida. Tinha de tudo. Carros que a família já teve, possíveis nomes para cachorro, filmes que assistiu aos sábados, sabores de sorvete que já tinha experimentado, etc..


Tudo era motivo para uma nova lista.

- Malu, posso te perguntar uma coisa?

- Fala.

- O que você tanto confere aí nesse seu caderninho heim?

Malu fazia que nem escutava. Botava o bloquinho de volta na bolsa e soltava:

- Heim?

Mal sabiam os outros que havia ali também uma lista só de pessoas que haviam perguntado a ela sobre a utilidade do tal caderno. Obviamente uma das maiores.

E ela seguia anotando, enumerando, catalogando, listando tudo o que se passava dia após dia. Claro, não cabia tudo num caderninho só. Ela apertava a letra, fazia colunas, espremia daqui, abreviava de lá mas uma hora o caderno acabava. Quando isso acontecia, ele ganhava um número de série e integrava a biblioteca dos, até o dia de hoje, cento e cinqüenta e três volumes escritos. Pois é, não vamos revelar a idade de Maria Lúcia, até porque não pega bem fazer isso com uma moçoila, mas digamos que a infância já vai longe e a mania das listas começou com o primeiro namorado.

Sim, o primeiro namorado. Coitado do rapaz. Um dia ele resolveu contar pra todo mundo na escola que estava namorando a Malu. Pra que? Era um tal de "tá namorando, tá namorando, nanananá..." que deixou a menina furiosa e morrendo de vergonha. Conclusão? As duas primeiras listas acabaram surgindo meio que ao mesmo tempo: a de "ex-namorados" e de "o que um homem não deve fazer para Maria Lúcia".

As duas listas cresceram juntas na medida em que Malu ia conhecendo novos rapazes. Isso até o dia em que a quantidade de exigências listadas por ela para um pobre infeliz conquistar seu coração era tão grande, que qualquer sujeito tomava um fora imediatamente após abrir a boca ou tentar qualquer iniciativa. Assim, logicamente, nasceu outra lista: a de "caras que tomaram foras no primeiro minuto". O mais interessante era que, depois de mandar o homem passear, ela parava e perguntava:

- Escuta, qual o seu nome heim?

Sem entender nada, já achando que ia ter uma segunda chance eles sempre respondiam.

- É Marcelo.

- Marcelo de quê?

- Souza. Mas quer saber porque heim?

- Só pra ter certeza que eu nunca mais vou te dar um fora outra vez. Grosseria que deixava o sujeito espumando de ódio daquela maluca. Mas assim catalogava mais um e não precisava explicar sua mania. Mania que aliás, assinaria embaixo toda a tese de maluquice.

Era tanto recalque, tanta intransigência que mal dava pra falar um bom dia sem cair na malha fina.

Conclusão? Na seca por quase 10 anos.

Exceção feita apenas ao Antônio. O Antônio foi o cara que encontrou o caderninho número 84 que Maria Lúcia esqueceu no ponto de ônibus. Foi fácil devolver, já que uma das listas era justamente de endereços onde ela já morou. No caminho até a casa de Malu, teve tempo suficiente para dar uma bela lida nas mais diversas listagens. Inclusive no manual prático para passar do primeiro encontro.

Quando tocou a campainha, Antônio quase caiu de costas com a beleza da menina. Devolveu o caderninho e deixou ela toda agradecida. Já emendou um convite pra sair. Talvez por gratidão, Malu acabou aceitando.

Fez tudo como mandava o figurino: chegou pontualmente, esperou pacientemente por 20 minutos, abriu a porta do carro, decidiu onde iam, puxou a cadeira, elogiou o cabelo, elogiou o vestido, ouviu tudo que ela disse atentamente, deixou ela escolher o prato, pediu massa, bebeu vinho, pagou no cartão, puxou a cadeira de novo, abriu de novo a porta do carro, tentou um beijo só na hora da despedida, ligou no dia seguinte, marcou um encontro pra dali dois dias, levou no cinema, escolheu uma comédia romântica água com açúcar, comprou os ingressos, comprou as pipocas, escolheu o assento do meio na fileira J, chorou, beijou ela no momento do beijo, ligou no dia seguinte, marcou outro encontro, mais outro, um outro ainda e levou a Malu pra cama.

Depois disso, no melhor estilo Arlindo Orlando, desapareceu. Escafedeu-se. Ó Antônio volte onde quer que você se encontre.

Já tem um tempo que ninguém sabe da Malu. Ouvi um boato que ela casou com o Sérgio. O Sérgio era o cara mais mal educado, ogro, porco e chauvinista do bairro onde ela morava.

Mas ele gostava dela. E, como condição pra viver em paz, parece que decidiu logo de cara entregar sua cartilha pro rapaz.

Coçar o saco podia. Mas experimenta não abrir a porta do carro pra você ver. Tá morto.

19 Comments:

Anonymous vivi said...

Adorei a forma como vc descreveu as condições destas mulheres exigentes, Gastón!
E que as exigências e condições não valem nada qdo existe o amor. Algumas mulheres se perdem nestas listas imensas e ficam sozinhas...E na verdade, nem acho que seja tanto recalque, mas sim, medo de sofrer...será!?
bjs.

1:17 PM

 
Blogger urbenauta said...

A Malu(ca) existe ? Ou é fruto do estudo incansável de manuais de psicopatologia ?

3:11 PM

 
Blogger Re said...

hahahahah esta Malu.... olha ando com caderinhos na bolsa para anotar coisas que sei que vou esquecer.... será que vou virar a Malu? Socorro... bjs Re

4:15 PM

 
Blogger Anna said...

Deve ser interessante, mas haja disciplina para anotar tudo no caderninho!!!
O máximo que eu consigo fazer é colocar a minha programação do dia seguinte na agenda... e na maioria das vezes só anoto o essencial, não tenho paciência pra anotar tudo.
Adorei a forma como contou a
história (ou estória)- como sempre.
Beijos

5:41 PM

 
Blogger Gastón said...

Vivi, você captou. É isso: crítica a esse tipo de comportamento. Não sei se é medo de sofrer. Mas a gente anda cada vez mais de saco cheio desse tipinho chegado num "umbigo". Não sabe deixar rolar, não sabe perdoar defeitos, não sabe entender. E não se enxerga também :0S

Urbe, a Malu é fruto da minha imaginação. Não existe. Não ao menos no meu convívio. Mas, como disse acima, ela ilustra um crítica.

Re, joga fora esse caderninho!

Obrigado Anna. E melhor assim. Agenda já é o suficiente ;0)

5:50 PM

 
Blogger Fabi said...

O bom de ser desmemoriada é que se não anotar não lembro. Quando não quero lembrar é só guardar na memória. Rapidinho vou esquecer mesmo, rs

11:02 PM

 
Blogger Isabella Kantek said...

Gostei muito desse texto, dessa idéia das listas, chorei de rir. Mas cadê o Antônio? =)

11:48 PM

 
Blogger Rubina said...

Lol

Parece que António dá azar. Espero que esteja feliz com o Sérgio...lol...Beijão

8:22 AM

 
Anonymous vivi, de novo said...

É, Gastón...
Eu já fui assim, sabe?!
Crítica. E, de repente, ainda tenho este defeito.
Mas sei que tem e quero mudar porque tenho a certeza de que todo o relacionamento - ainda mais os que estão à parte da 'listinha' - têm algo a acrescentar em nossas personalidades, fazendo-nos crescer e amar cada vez mais.
Acredito nisso.
Bjs.
PS: E não fica de saco cheio não...acontece, às vezes.

12:15 PM

 
Blogger MH said...

Eu faço listas, e tenho caderninho na bolsa. Mas minhas listas são mais práticas e realistas. Ou são listas de palavras, funcionais.

Na hora do vamos ver, sou espontânea demais pra seguir tanta regra... graças a deus, né?
Já pensou, coitada da Malu, tanto encheu o saco que terminou com o ogro...

3:10 PM

 
Blogger Rodolfo Barreto said...

Certas pessoas não têm jeito. Mas quando o assunto é paixão mesmo, não tem lista que resita.

Ô, Malu: já tentou segurar um lápis com as mãos suadas de ansiedade? E a tremedeira? Só isso já é capaz de fazer qualquer lista virar um cismógrafo. Se tentar fixar melhor o lápis, até quebra a ponta. Deixa isso de lado, Malu. Amor não aprende em livro e muito menos em cadernos.

3:39 PM

 
Blogger Cristina said...

Conheço um monte de Malu, e depois de ler, acho até q já me comportei assim...
Bom acho que como foi dito ai, um pouco de medo, pq a gente encontra cada coisa, que mtas vezes se pergunta se eh real.

Não precisa de lista, nem exigências, melhor ser sincero, afinal diferenças existem, e se não tiver a paciência pra saber no q vai dá, já esta começando errado.

adorei o texto,

bjao
Cris

4:21 PM

 
Blogger Gastón said...

Fabi, mal reconheci você com essa foto nova. Detalhe que eu nunca te vi pessoalmente né?;0)

Isabella, o Antônio? Sei lá, deve estar aplicando o golpe da lista por aí.

Rubi, pois é, quem sabe é do ogro mesmo que essa chata precisa.

Vivi, that´s the spirit. Posso te dar um conselho masculino? Não caia nessa. É péssimo pra você e pra quem tá afim de você. Eu escrevi esse texto, na verdade, baseado em observações que fiz em relação à minhas amigas. Vejo nelas esse comportamento. Mas, talvez por procurar ser atencioso, nunca me envolvi com alguém que demonstrasse isso.

Beibe, vc tem caderninho? Como assim beibe? Então anota aí até memorizar: "eu não faço listinha, eu não faço listinha, eu não faço listinha..." ;0)

Tá apaixonado Rods?

Cris, pra mim isso tem um nome: imaturidade. Não te parece? Quanto mais velho a gente fica mais exigente. Ok. Mas também tem mais jogo de cintura pra lidar com as coisas, mais vivência pra entender o outro, etc... Nem sempre quem não te puxa a cadeira pra sentar vai puxar teu tapete pra cair.

6:59 PM

 
Blogger Cláudia said...

Nêga pentelha essa Malu!
Sabe que já conheci uma Malu que era igualzinha a do texto: cheia de exigências e pior, sem direito a troca. Era só venha a nós, vosso reino nada.
O que foi feito dela? Engravidou dum namorado péssimo que lhe deu um pé na bunda e mal registrou a criança, casou com um cara que era o que tava à mão pra não ficar pra tia e vive até hoje no poço de amargura, mau humor, ressentimento e inveja no qual sempre viveu.
O pior de tudo é que ela não se tornou assim, ela SEMPRE FOI ASSIM, porque cresceu acreditando que o príncipe encantado iria amá-la loucamente mesmo que ela o tratasse feito um capacho - e da porta da cozinha ainda por cima.
Pronto, já despejei minha revolta!!! rs
beijo, adorei o texto, apesar da ojeriza à Malu!

7:11 PM

 
Anonymous Mulher Solteira said...

Isa,

tá preocupada com o paradeiro desse Antonio? :) Achando que ele pode ter casado e se mudado para NY? Hahahahahahahhahaha

Adorei o texto, Gasta... eu sofro de muitos males de mulher solteira, mas esse, pelo menos, não!

10:58 PM

 
Anonymous érica said...

Com diria a Marta Suplício....hehe:
Malu, relaxa e goza!

Adorei essa crítica às mulheres que passam a vida toda controlando os mínimos detalhes e qdo a vida bate na porta elas escolhem a opção menos pior...aguentar o cafageste à ficar sozinha. Antes só do que mal acompanhada..num sei, não?

10:36 AM

 
Blogger Gastón said...

Clau, é isso aí, desabafa. Nossa essa sua amiga aí acabou pior que a Malu heim? Afe, castigo.

Cris, ainda bem que desse mal vc nao sofre. Uma pessoa tão questionadora quando você não correria mesmo esse risco.

Érica, acho válido a melhor só do que mal acompanhado. Mesmo porque, estando só pode surgir uma boa companhia. Mas a Malu ficou com o Sérgio como castigo do autor mesmo ;0)

10:47 AM

 
Blogger Gatta said...

Vivemos na era do TOC, de fato.
ODEIO regras. Jah eh um sacrificio ter q entender que no trabalho nao posso usar pantufas de pelucia, mas eu tenho que pagar as contas e encaro o salto fino. Jah no amor nao ha contas para pagar, entao prefiro ir fazendo o q da na telha ao inves de seguir as regras (camufladas como conselhos) que todo mundo tenta me convencer que sao necessarias.
Olha Malu... Seguir regras pode ajudar em muita coisa. Numa dieta, num trabalho chato, numa prova de matematica. Mas no amor... Nem vale a pena. Boa sorte com seu marido que coca o saco.


(Putz, ficou grande. Deveria ter botado um post no meu proprio blog neh.)

10:38 AM

 
Blogger Gastón said...

Gatta, de pleno acordo: no rules. Pois é, podia ter virado post. Ainda tá em tempo ;0)

10:41 AM

 

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