sábado, fevereiro 17, 2007

Infalível é acordar

Aproveitando o longo feriado de carnaval, um texto não menos longo. Um conto. Texto que saiu da minha vida e acabou voltando pra ela. Engraçado ler isso mais de um ano depois de ser escrito. Muitos já conhecem. Espero que continuem gostando.

Gastón.


Ele sabia que precisava resignificar a vida. Não podia mais acordar todos os dias com a mesma sensação, remoendo as mesmas lembranças, sentindo no estômago o soco forte dos pensamentos que invadem a cabeça tal qual um enxame de abelhas assim que o corpo desperta. O frio na barriga era seu melhor despertador, seu primeiro aviso de que ainda estava vivo. Sempre o acordava vinte e cinco minutos antes do radio-relógio. Relógio na cabeça bomba-relógio.

"Porra, isso deve fazer mal pro coração"


Rodrigo se levantou no escuro. Do lado direito da cama, pisando com o pé direito no chão. Lembrou de um sonho esquisito onde o mar começava no quintal de casa e pessoas do passado se despediam pra desaparecer no oceano. Escancarou a janela do quarto fazendo as venezianas baterem contra a parede, anunciando à vizinhança que ele tinha acordado. Era esse seu arauto matutino. O mar não estava lá, só o dia cinza que não convidou pros cinco minutos dedicados a observar a manhã.

O cinzento entristecia e descansava as retinas. Rotinas de todos os dias frios em que a primeira coisa que lhe vinha à cabeça era que "Ela odeia dias assim. Mulher friorenta". Ele adorava dias frios, mas não podia confessar isso sob a dura pena de se parecerem menos um diante do outro. Mas quem, em sã consciência, desejaria por mais fogo nesse inferno? Viver já era desconfortável demais, não carecia de mais calor.

Era isso que lhe dava a sensação de acordar cansado diariamente. Essas malditas pequenas memórias de tudo o que o ligava aquela mulher. As doses de endorfina, o corpo amolecendo, os joelhos falhando, o coração disparando, a fronte dolorida. Momentos que só existiam dentro daquele corpo, transformados em impulsos nervosos e reações químicas.

Rodrigo não fuma, não usa drogas, não toma remédios. Não se apóia, não tem cura e nem se ilude. É insana a mente de alguém que não procura ajuda, que agarra o touro pelos chifres, que faz planos pra conseguir parar de sofrer. E o plano infalível é acordar. Ele sabia que um dia desses a vida ia resignificar, que as lembranças iam desaparecer, que ia ser despertado pela própria gargalhada louca de quem se livrou daquele atentado diário contra o próprio nervo ou pelo barulho das ondas batendo embaixo da própria janela.

Deixou a casa meio bagunçada. Perdeu muito tempo debaixo do chuveiro quente. Deixou cair nas costas doloridas a água quase fervente, aspirou o vapor denso que tomou conta do ar, ficou escrevendo seu nome no vidro do box. Deixou pra trás a louça do café, a cama desarrumada e as roupas no banheiro.

- Dane-se, ninguém vai entrar no banheiro.

Entrou no carro, ligou o rádio. “Ela que simplesmente não sabia andar sem ligar o rádio”. Com ela o carro dava partida no play e não no contato. Agora, dirigindo sozinho pro trabalho, não é qualquer música que se ouve fácil. Muita coisa o fazia lembrar. Mas era essa a maneira de o mundo lhe dizer que o que aconteceu a ele, acontecia exatamente igual a todo mundo.

Não deve ser coincidência as estações do rádio do carro ficarem armazenadas na memória. Mais da metade de tudo o que toca, compõe uma vasta trilha sonora de lembranças tiradas do peito em longos suspiros. Agora Rodrigo só conseguia ouvir música alta, confusa, daquelas que não vale a pena prestar atenção. As músicas para vibrar, iludir, desalinhar os sentidos, as melodias, os chakras.

O caminho não era longo. Mas a cidade atravancada pela chuva que caiu na madrugada, denunciada nos vidros dos carros que dormitaram pra fora de casa, marcava seu ritmo lento com os limpadores de pára-brisa ligados de tempo em tempo. Um tique-taque, um não inconstante.

Os vidros salpicados eram perfeitos esconderijos. Ele ainda dirigia por ruas estreitas sendo alarmado por quaisquer cabelos de fios avermelhados transitando nos dois lados da calçada.

“É aqui perto que ela mora".

Não, não foi hoje que ele a viu sem querer. Ainda bem. Estacionou o carro na mesma vaga. Desligou o som e deixou o esconderijo pra caminhar desprotegido até o trabalho.

Rodrigo era obrigado a caminhar todos os dias sobre os mesmos passos que Ela fazia habitualmente. Aquelas ruas eram dela. Em cada metro de calçada estavam candenciadamente gravados os pés pequenos, bem menores que o dele, dessa mulher que o fazia diariamente perder o rumo. Andava cabisbaixo, imaginando seus pés se encaixando em pegadas imaginárias. Esse hábito lhe fazia deixar despercebidos os outros transeuntes. Mas naquele dia, igual a todos os outros, Rodrigo, a caminho do trabalho, perdeu a conta dos passos e viu o rastro do passado desaparecer por um instante. Parou. Não sabia mais o caminho. Não sabia mais para onde ia.

Olhou ao redor. Os carros estacionados no meio fio, uma senhora fechando o portão do prédio, um senhor abrindo o restaurante. Tudo comum, tudo ordinariamente simples e óbvio para uma rua como aquela. E vindo em sua direção, a passos simples e óbvios, alguém diferente daquilo tudo. Prendeu sua atenção. Prendeu a respiração.

Um caminhar diferente. Olhos atentos, nariz avermelhado de quem sentia os efeitos daquele frio. Mesmo assim vinha sem casaco. Talvez ela preferisse. Talvez quisesse deixar a mostra a tatuagem vermelha no ombro esquerdo. Talvez achasse que o tempo iria melhorar. Tinha cabelos longos, vermelhos de quem um dia também já fez o coração disparar. Rodrigo se deparava com outra mulher, uma anônima, uma página em branco.

Parou estático, pés cravados no cimento observando-a acenar contente para uma senhora que passeava no outro lado da rua de mãos dadas com uma criança. O encontro das duas mulheres a fez atravessar a rua de asfalto molhado. Evitou um outro encontro que nunca foi marcado. Quem sabe se os dois tivessem, por um breve instante, os olhares cruzados?

Alguns minutos se passaram ali naquela calçada. Aquele novo rosto sorriu ao despedir-se daquela senhora, sua conhecida. Agachou-se igualando altura à criança que também arrancou um belo sorriso daquela face. Até logo. Retomou o caminho para desaparecer no fim da rua. Nenhuma das mulheres percebeu que estava sendo tão vergonhosamente observada por um estranho do outro lado da calçada. E estranho era como Rodrigo se sentia. Não sabia quantos minutos se passaram enquanto ele permaneceu ali, imóvel, forçando sua mente a registrar cada segundo daquela cena que ele sabia, era um momento de lucidez único, uma certeza absoluta.

Retomou seu caminho. Chegou ao trabalho. Estava atrasado, mais atrasado do que normalmente estaria. A boca automata deu bom dia, o braço automato pendurou a bolsa na cadeira, encheu sua garrafa d'água, regou sua planta, afastou a cadeira para sentar-se diante do computador. Não conseguiu trabalhar.

Durante todo aquele dia não esperou que o telefone tocasse, que um e-mail chegasse, que alguém à porta mandasse lhe chamar. Não quis ouvir músicas nem sair para almoçar. Durante aquele dia ele apenas refez mentalmente aquela cena pra tentar ao menos dar rosto eternamente a uma mulher sem nome em seus pensamentos.

Chegou cedo em casa, mas logo se preparou para deitar. Ele sabia que no dia seguinte, ia acordar ao som do mar.

4 Comments:

Blogger Smeller said...

Achei lindo, poético e fluído. Gostei. :-)
Pol

10:05 AM

 
Blogger MH said...

Que delícia reler esse texto, mais de um ano depois!
adoro, beibe. descrições de sentimentos que todos experimentamos em algum momento da vida, ela se resignificar...

valeu a leitura do domingão!
beijo

12:08 PM

 
Blogger mc said...

Ai, ai, suspiros... amo esse texto rânei.

1:10 PM

 
Blogger Anna O. said...

agora entendi o seu "quase morri"...
lindo texto

7:07 PM

 

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