sábado, janeiro 20, 2007

Ideia de Jerico

Gosto de textos da minha infância. Esse em especial. Resolvi postá-lo porque a Re falou recentemente sobre o medo dela de lagartixa. Ainda bem que ela não é minha irmã...

Gastón


Eu não fui criança, fui moleque mesmo. Por isso hoje, se alguém espera que eu peça pro meu sobrinho descer do muro pode desistir. Eu corria descalço em cima do muro. Aliás, eu saia pela janela do quarto da minha mãe, andava no telhado, descia no muro, corria ele todinho e depois subia no telhado da edícula do vizinho. Pra quê? Sei lá. Só sei que uma vez um enxame de marimbondos me atacou lá em cima.

Minha mãe costumava dizer que eu só tinha idéia de jerico. Não sei se esse termo é comum pra todo mundo, mas eu ouvi isso lá em casa a vida toda. Ainda ouço, aliás.

Quando a gente é criança não tem medo de nada. Eu, além disso, tinha um agravante: era completamente sem noção. Minha série de cicatrizes não me deixa mentir. Acho que o auge da minha carreira foi quando abri a testa e o joelho no intervalo de 2 semanas. Foi o mesmo médico que me atendeu no hospital.

- Você de novo? Mas esse seu filho heim dona...

Eu nunca quebrei um osso, mas tenho uma belíssima coleção de tipóias e talas de velcro pra tudo que é lugar. Se alguém quiser ir numa festa à fantasia vestido de atropelado ou precisar faltar no trabalho é só me dar uma ligada.

Por falar em coleção, eu tinha de pedras, selos, latinhas de cerveja e insetos. Insetos mortos, claro. Nos fundos de casa tem um quartinho (atual dormitório de gatos) onde eu fazia meus “experimentos”. Prateleiras com um monte de vidros de azeitona com múmias de aranhas e escorpiões mergulhados em álcool. “Eu mesmo que cacei” explicava orgulhoso para os visitantes do meu pequeno circo de horrores. Eu matava as aranhas com inseticida, colocava num potinho de Cebion e jogava no freezer. Depois de alguns dias retirava a aranha de lá, abria as patas com uma pinça (senão não tem graça, ela fica muito pequena com as patas encolhidas) e “embalsamava” a coitada no vidro com álcool.

Meu projeto de uma vida era criar uma cápsula com uma substância que, ao jogar na piscina do meu vizinho, a água ficasse tingida de azul. Nunca deu certo. E olha que eu desmontei vários remédios da minha mãe pra roubar as cápsulas e encher de porcaria...

E quando eu resolvi que queria fazer um foguete? Abandonei a idéia porque as velas da sala não tinham propulsão suficiente.

Todo santo dia eu preparava uma armadilha pra quando minha irmã chegasse em casa e abrisse a porta do quarto, uma almofada caísse na cabeça dela. Um vez eu sofistiquei uma dessas no quartinho dos fundos com uma engenhoca que deixava cair água de um copo de plástico. Funcionou perfeitamente. Na careca do meu pai.

Pintei meus carrinhos de preto, explodi meus Comandos em Ação com bombinha 10, estourei muita lâmpada velha com estilingue, vestia meu porquinho da índia com chapéu de playmobil pra tirar fotos, irritei os vizinhos com meus incessantes treinos de cobrança de falta no corredor do quintal, cacei lagartixa na minha lancheira de Todynho pra jogar no quarto da minhas irmãs...

Pois é, idéias e mais idéias de jerico. Elas ainda existem, mas servem pra outras coisas...
Como escrever posts diários, por exemplo.

6 Comments:

Blogger Tati said...

... criados a partir de uma lagartixa... eeeeeeeccccccaaaaaa....
bj

8:55 AM

 
Anonymous Aninha said...

As idéias de jerico tb me perseguem!
Nem sempre, mas hora ou outra... rs

1:53 PM

 
Blogger MH said...

Nossa, mas vc era impossível!! Ainda bem que aprendeu a canalizar a criatividade...
beijos beibe!

7:38 PM

 
Blogger Gastón said...

Tati, lagartixa come pernilongo! É um bicho legal.

Ana, uma vez ideia de jerico, sempre ideia de jerico.

Pois é beibe. Aprendi mesmo?

9:10 AM

 
Blogger Re said...

Ainda bem que vc não é meu irmão, mas o destino me fez ter medo de lagartixa.
Fui passar umas férias quando criança na floresta Amazônica, 1 mês na mata, e sempre antes de dormir, minha mãe olhava minha cama, tirava o lençol com medo de algum bicho me morder, mas um dia o perigo veio do teto... uma lagartixa inventou de morrer à noite e em cima de mim... e isso me causou todo este trauma... uma salva de palmas para a sua irmã.... olha os traumas que vc causou nelas.... bj

2:28 PM

 
Anonymous Flavita said...

Meu Deus, vc é o Calvin!

12:04 PM

 

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