sábado, janeiro 13, 2007

Clássico é clássico e vice-versa.

Requentada de fim de semana. Nesses tempos em que o regime está tão em tônica (literalmente), um textos sobre tentações da baixa, baixíssima gastronomia.

Gastón


Morar perto de um estádio de futebol traz um grande problema pra vida da gente.

Não, não, o trânsito tudo bem. É só se programar pra sair ou chegar uma hora antes, uma hora depois ou durante os jogos que não tem problema. Quando tem time campeão é um tal de gente gritar na sua rua até de madrugada, mas isso acontece uma ou duas vezes por ano, não me importo. Também não moro tão perto assim a ponto de alguns torcedores resolverem fazer meu jardim de banheiro público.

O problema de morar perto de um estádio de futebol há 30 anos é ter que passar na frente dele e ser sumariamente atingido por aquele cheiro de churrasquinho de gato que vem das barraquinhas em dia de jogo.

Cara, isso é cruel.

Porque eu vou dizer uma coisa: nem picanha, nem filét mignon, nem maminha, nem nada que possa existir dentro de uma churrascaria exala um cheiro tão espetacular quanto um bom espetinho miau.

Você passa na frente daquela churrasqueirinha preta cheia de espetinhos enfileirados, com aquela tia gorda sentada num banquinho abanando a brasa com um pedacinho de papelão... e aquele mesmo vento que faz a brasa incandescer, espalha aquele aroma, aquele verdadeiro bouquet num raio de dezoito quarteirões de distância.

Nossa quase me afoguei agora só de lembrar.

A fumacinha vem andando lentamente, se esgueirando nos canteiros, se enrolando nos postes, passando entre os fios da rede elétrica... dá pra ouvir aquele som de flautinha acompanhando o movimento quase reptiliano da fumaça que de repente encontra o seu nariz e te captura para levá-lo flutuando através de um sinuoso caminho de volta até a barraquinha mais próxima.

- Tia, quanto tá o espetinho?
- Um e cinquenta, fio.

- GASTÓN ACORDA! Você tá em transe, acorda! Sai churrasquinho, sai desse corpo que não te pertence. Dá licença tia, ele não sabe o que tá fazendo. Dá esse espetinho aqui, solta, solta!!! Gastón esse negócio mia! O Micão* nunca mais olha na sua cara se você fizer isso!

Dessa vez passou perto.

Mas não é só de espetinho que se vive ou que se cheira antes de uma partida de futebol. Você pode arriscar um x-calabra, um pernilzão com vinagrete ou um tradicionalíssimo Hot-Dog.

As barraquinhas tem sempre uma bandeijona com um monte de salsichas mergulhadas num molho de tomate borbulhante, um pernil bem temperado coberto com uma toalha e aquela calabresa enrolada em espiral pronta pra ser fatiada.

Esse é o menu clássico. E como diria o filósofo Jardel, "Clássico é clássico e vice-versa".

Vez ou outra eu vou ao estádio acompanhando meu compadre, um São Paulino fanático daqueles que não perdem um só jogo do tricolor. Tá, eu não torço pro São Paulo mas gosto de futebol e é sempre bom ver um joguinho despretenciosamente, sem se preocupar com quem vai ganhar ou perder. Tá bom, eu vou lá pra secar mesmo.

Bom, mas o fato é que, mais de uma vez, meu compadre resolveu bater um sandubão de pernil acebolado depois da partida. Foi a primeira vez que eu pude constatar que as pessoas sobrevivem depois disso. Falei com ele ainda ontem.

- Eu como depois da partida porque senão vai que me dá uma zique-zira e eu perco o segundo tempo... nem pensar!

O sujeito é prevenido. Mas, segundo ele mesmo, se alguma bactéria conseguir sobreviver àquela chapa onde a tiazinha dá uma caprichada no recheio, isso sim é um bichinho digno de ser engolido.

O máximo que eu encaro é um hot-dog desses que a gente compra naquelas vans adaptadas. Ketchup, mostarda, maionese, batata palha, vinagrete, milho verde, purê de batata, queijo ralado, cama, hospital, soro, morri.

Morri nada. Nem eu nem meu compadre.

Viver perigosamente. Coisa pra macho.
Ou seria coisa pra avestruz?


* Micão é um gato vagabundo, gordo e gigantesco que vive na casa da minha mãe.

10 Comments:

Blogger Cláudia said...

Uma amiga me contou ontem que um amigo dela volta e meia come um x-checkup.
O x-checkup é um desses sandubas de rua que vêm com tudo amontoado dentro.
Ele diz que, comendo aquilo ali e ficando tudo bem, é porque tá com tudo em cima. Não precisa de cardiologista, teste de esforço, exame de fígado nada.
Passou incólume pelo x-checkup, tá bacana!

3:22 PM

 
Blogger MH said...

gastonzito, o regime tá te fazendo voltar aos delírios??

cheiro de churrasquinho me mata... já contei que meu colégio (onde estudei a vida inteira) era do lado da fábrica da Nabisco? Era um crime, aquele cheirinho de biscoito no segundo intervalo, perto da hora do almoço...

12:48 AM

 
Anonymous Ana R. said...

Hummmmmmm... cheirinho de bolacha... que perdição!
Mas CHURRASQUINHO? Pirou? Concordo com a MH: delírio! Só pode ser...
Se gosto não se discute... "cheiro" tb não! rs

1:28 AM

 
Anonymous Anônimo said...

Lá no Espírito Santo morar perto da fábrica da Garoto é para os fortes.
Meu pai come sarapatel na feira, churrasquinho na rua, uva sem lavar no supermercado, morango direto da caixinha. Está vivo e bem aos 76 anos. Já minha mãe quase infarta toda vez que ele faz isso.
Bjs. Rosana.

11:34 AM

 
Blogger Rubina said...

Gáston

Essa frase do Jardel é aquele jogador de futebol que jogou em Portugal?

Beijos

7:04 PM

 
Blogger Cláudia said...

Verdade, Gastón, o que a Rosana diz. Meu pai come mesmo tudo isso, fora o que a gente nem fica sabendo. E ainda rouba do seu prato aquela gordura que reveste a picanha, manja?
Se ele morasse perto do estádio, certamente comeria essas porcarias toda semana, e quando minha mãe reclama ele diz que ela é metida a besta.
beijo

7:56 AM

 
Blogger Tati said...

Meu pai não é lá muito diferente, se não for pior, Clau! è um português de 80 anos que mora sozinho, ou seja, prepara tudo sozinho, cuida da "limpeza" e passou fome na segunda guerra... Então pra ele, se preocupar com "detalhes" é coisa de fresco.....
E Gasta, querido, depois do nosso período de freiras franciscanas, eu fiz o colegial ali no Porto Seguro, atrás do estádio, lembra??? (Lembro do dia do teste, eu, vc e a fe...)O cheiro de churrasquinho era quase diário, não só em dia de jogo, um inferno na Terra.....
beijo

9:05 AM

 
Blogger Michel said...

Essa fumacinha é igual aos desenhos do Pica-Pau. Você flutua até a FDP da barraquinha e já era. Abraço.

12:00 PM

 
Blogger Gastón said...

Clau, x-ketchup? Eca... se levar a risca é um sanduba de queijo com Ketchup.

beibe, cheirinho de biscoito é cruel heim? As vendas de biscoitos na cantina deviam ser record.

Aninha, vc é o único ser que eu conheço que não se curva diante de um cheirinho de churrasco. Até vegetariano saliva.

Rô e Clau, seu pai precisa vir assitir um jogo aqui no Morumbi pra provar nossos quitutes.

Rubinam é esse mesmo, ele jogou no FC do Porto :0) Antes ele era jogador do Grêmio de Porto Alegre, aqui no sul do Brasil.

Tati, eu lembro bem daquele teste. E só fui porque a Fê e o Fedaltinho foram. Meus amigos mais próximos (sem contar outros fatores ligados à Fê). Mas ainda bem que eu fiquei no Pio XII. Gosto de mais daquele colégio.

Michel, exatamente. Fricassê de Pica Pau. Lemmbra dessa?

12:46 PM

 
Blogger MH said...

Tá achando que pode ficar sem escrever de sábado à terça???

cara de pau! e como EU passo o tempo ocioso?

rsrsrs
vou levar o laptop, continuar te vigiando à distância. Amiga Car System, tá?
beijo beibe

8:05 PM

 

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