sábado, janeiro 27, 2007

Aquela que matou o guarda

Saudades de umas noitadas regadas a muito chopp. O máximo que tenho me permitido são noitadas regadas a muita tônica diet. Shit.

Gastón


Aquela que matou o guarda.

Sair, beber, conversar... verbos que combinam, não acha? Sair sempre, beber umas e outras e conversar muito, muito mesmo.

E normalmente o papo tá tão bom que não dá vontade de parar de beber. O chopp tá tão gelado que não tem como parar de falar.

E é assim, pra lá de bagdá e cheio de amigos dos mais falantes que a gente perde completamente a noção da hora (entre outras noções...).

Só que bares, naturalmente, fecham. Mesmo aqueles que tem a plaquinha:

"ABERTO ATÉ O ÚLTIMO CLIENTE". Na verdade, faltou um complemento importante na frase que é "...SER EXPULSO".

Quem nunca fechou um bar ou um restaurante?

Existe toda uma técnica, todo um ritual de preparação para o encerramento da noite que, aos poucos, vai esvaziando o recinto.

O primeiro sintoma de que a noitada precisa acabar naquele lugar é quando o garçom começa a rondar a mesa e de repente pergunta:

- Os senhores estão satisfeitos?
- Desejam algo mais para comer? É que estamos fechando a cozinha...

Tudo bem porque a essa hora a gente já passou da fase de comer. E por falar nisso...

- Já me vê mais dois choppes por favor?

Aquele pobre homem de gravatinha borboleta começa a perceber que aquelas pessoas não vão levantar o traseiro dali tão cedo. Algo precisará ser feito.

O tempo vai passando, cada vez mais cadernetinhas pretas circulam de lá pra cá, pessoas se levantando, se abraçando e jurando um próximo encontro em breve pra continuar a conversa. Pra você e seus amigos não porque o mundo pode acabar amanhã e a gente ainda tem assunto pra cacete.

Baixa a porta do bar. Ninguém mais entra. Abençoados aqueles que ainda estão do lado de dentro. Mas é justamente esse o segundo passo da operação expulsa bebum.

Garçons cada um no seu posto: o Tião fica faz cara de blazé com os cotovelos no balcão. O Zé, o Vavá, o Bira e o Almeida fazem marcação mesa a mesa com cara de "E aí, vão querer mais alguma coisa?". O Português começa a fechar o caixa emitindo o máximo de barulho possível e o pessoal da cozinha fica debruçado no passa-pratos fazendo aposta de quem vai ser o último a deixar o boteco.

- Garçon, a saideira.

Alguns cedem à pressão e pedem a conta.

Mas, inevitavelmente, no fim sobram sempre duas mesas: a sua e aquela do outro lado do restaurante. E é a justificativa ideal pra ficar alí mais um pouquinho. Enquanto eles não sairem, você também não sai. Enquanto você não sair eles também não se mexem. Isso pode durar dias...

- Não tem mais ninguém, só nós.
- Não, tem mais aquele pessoal ali naquela mesa ó.
- Uia, é mesmo.
- É desencana...
- Garçom, me vê uma água mineral sem gás com limão e gelo, por favor?

Porque a gente pede água mineral com limão e gelo pra fazer uma hora né? Não sei, dá uma justificada eu acho. Olha garçom, são 5 da manhã, a gente tá aqui desde as 7 e meia mas estamos consumindo ainda. E o limão e gelo dão aquele estatus de drink. E pra água a gente não precisa ligar muito. Aquela aguinha vai ficar ali, não vai perder o gás, o gelinho vai derretendo, não vai esquentar, não vai virar uma bomba se misturar com os 10 choppes e a caipirinha... o enrolador perfeito.

Os garçons começam a apagar as velas das mesas, tirar os guardanapos, os galiteiros e, discretamente, lançar olhares na sua direção como quem quer dizer: "Oi, vai faltar só a sua mesa pra a gente limpar a hora que você sumir daqui".

Mas não liga não. Pressão psicológica não pode te abalar. Tem o pessoal da outra mesa e eles nem pediram a água mineral ainda.

Aquele bando de pinguim percebe que ninguém sentiu o baque e parte pro contra-ataque: viram as cadeiras em cima das mesas. De repente você começa a ficar isolado no meio de um monte de pé de cadeira pra cima. E vem golpe de misericórdia: com um sorrizinho maroto, o cozinheiro liga o esquicho e começa a lavar o chão.

Num movimento rápido você percebe que o pessoal da outra mesa acabou de levantar vencido pelo som da enxurrada, pega os copos, junta todo o amendoim que sobrou e corre pra mesa deles onde a água ainda não chegou. Só mais alguns minutos, só mais alguns minutos enquanto a gente decide pra que outro bar a gente vai depois daqui!

E enfim aquilo acontece: o inapelável.

Preste atenção, se isso acontecer, você tem que ir embora de qualquer jeito. Game over. Não tem como, é absolutamente irrefutável, não há força na natureza capaz de vencer, não há gorjeta capaz de compensar, não há água mineral com gás, gelo e limão capaz de manter você incólume naquela cadeira:

O garçom está de calça Jeans.

Se o garçom já botou a calça Jeans, fudeu. Perdemos.

O manobrista já foi embora e a sua chave tá no balcão. A rua inteira está deserta e o seu carro está ali solitário estacionado na porta do bar.

- Tchau obrigado e volte sempre.

E o garçom fecha a porta com aquele ar vitorioso, desfilando com sua arma invencível.

Bêbados, afônicos e derrotados.

5 Comments:

Blogger cbaioco said...

ô dó...

8:51 PM

 
Anonymous Aninha said...

Sei bem como é esse negócio de fechar o bar... rs
Atualmente eu só tenho acabado com o estoque de tônicas diet... mas brevemente essa hitória terá 1 final mais feliz!

1:08 AM

 
Blogger MH said...

ai que saudade de ter meu pé varrido pra fora do bar, com o sol quase nascendo...

8:47 AM

 
Blogger Gastón said...

Clau, é cruel mesmo.

Aninha, tônica diet, só na tônica diet!!!

Beibe, nem me fala... um dia a gente volta à ativa. MAs com moderação pra nao engordar de novo.

9:36 AM

 
Anonymous Anônimo said...

Na outra encarnação estava eu e uns amigos e amigas no Hooter's do Bay Side (sim, Miami);quando deu umas 11 da noite aquelas muié com shortinho e meia calça fina pra segurar a celulite começam a esvaziar as pitchers em copos de plástico e enfiar a conta embaixo do seu nariz...glamour zero.
Bjs. Rosana.

1:14 PM

 

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