quarta-feira, abril 02, 2008

Contando ninguém acredita.

No escritório, bem no centro da cidade, só trabalhavam homens. Eram nove ao todo. O Chefe, sete contadores e o boy. Todo dia, das oito às cinco, com uma hora de almoço. Em cima do carpete verde, puído, de um lado pro outro as pilhas de papéis andavam de colo em colo apoiados nos colarinhos. Balanços, contas, impostos, relatórios e memorandos. Calculadoras com os números quase desaparecendo, trabalhando duro debaixo dos dedos grossos daquela gente burocrática. Em cada mesa de madeira pesada, um raciocínio de matemáticas e recolhimentos.

Era uma quarta-feira de Janeiro, com as janelas escancaradas por causa do calor e um ventilador velho que dava pra contar quantas voltas cansadas dava. A porta de vidro granulado do chefe estava fechada desde cedo. Lá de dentro, risadas, vozes, silhuetas aparecendo e sumindo a cada instante. Uma, duas horas e nada do Seu Cardoso aparecer pra dar bom dia. No meio da manhã, a porta se abriu e se ouviram nitidamente as vozes altas e descontraídas.

- Ah Dona Juliana, a senhora vai gostar muito daqui. E vai ser muito agradável. Espero que a senhora dê seu toque feminino ao escritório. Não aguento mais esse bando de marmanjos todos os dias olhando pra minha cara. Soltou uma grave gargalhada, o homem, balançando a pança e apertando os olhos de sobrancelhas desgrenhadas.

- Claro Seu Cardoso. Vou começar sugerindo ao senhor trocar esse papel de parede todo embolorado. Minha renite não vai aguentar cinco minutos com esse troço.

- Puxa, a senhorita tem razão. Soltou outra gargalhada. Eu nunca tinha reparado no estado desse papel de parede. Só uma mulher mesmo pra atentar a esses detalhes.

Estava satisfeito o patrão. Do lado daquela mulher alta, de cabelos castanhos e longos, de padrões avantajados e proporções bem distribuídas. Diante de 8 paralisados que não sabiam seus nomes.

- Pessoal, um minuto de sua atenção - disse Seu Cardoso como se realmente isso fosse necessário -Essa aqui é a Dona Juliana. A partir de hoje ela trabalha conosco como secretária da empresa. Vai me auxiliar no dia a dia das atividades e também atender nossos telefones, providenciar materiais de escritório, receber os clientes.

No máximo um aceno tímido ou um meneio de cabeça. Oito bocas escancaradas de olhos vidrados. Parecia que ali estávamos diante de frades em clausura, adolescentes de mães castradoras ou náufragos em ilha deserta. Desconcertado com a reação dos funcionários e notando a sensação de "corda de linguiça no meio do canil" da moça, Seu Cardoso apresentou Dona Juliana à sua mesa de trabalho. Pelo menos dessa não se poderia mesmo esperar nenhuma reação simpática ou calorosa.

Continua...

5 Comments:

Anonymous Carol said...

Deu pra visualizar direitinho o escritório. Posta logo o resto, vai...

8:11 PM

 
Blogger ANNA said...

Gasta... vc está cada dia melhor, heim?!
Estou adorando, continua logo vai...
Beijo
(urb)Anna

8:26 AM

 
Blogger Flavia Melissa said...

ô se volto, tanto que já voltei.
então vc trabalha com mi amada juju?
mmmmmmmm...
tinha ficado curiosa de como é que vc tinha aparecido no meu blog, agora já sei :)

beijo beijo e posta a continuação. LOGO.

5:42 PM

 
Anonymous Daniel said...

Sua escrita é bem rica e detalhada. Já é a segunfa vez que venho por aqui, e acredito que virei anda mais. Na espectativa pela segunda parte. Bom final de semana.

http://so-pensando.blogspot.com

9:33 PM

 
Blogger Gastón said...

Carolzinha, botei você lá dentro e deixei esperando. Quer um café enquanto a segunda parte não vem? D. Juliana, traz um café aqui pra Carol.

Ô Anna, obrigado :0) Pode deixar que logo, logo eu posto o final.

Flavia, nuestra amada Juju :0) Minha comparsa aqui na agência. Que bom que voltou. Mi casa, su casa.

Daniel, obrigado. Espero que venha sempre :0)

9:49 AM

 

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