domingo, fevereiro 17, 2008

Sem freio.

Chegou o dia em que o pensamento assumiu total controle sobre a boca. Assim, sem mais nem menos, desapareceu o filtro existente entre esses dois lugares do nosso corpo. Tudo o que vinha a cabeça era dito imediatamente, como um tradutor simultâneo propenso a barbaridades.

Atingiu a todos, de uma só vez. Conforme iam acordando naquele dia fatídico, todos os cidadãos começaram a falar.

- O que? Saco, já seis e meia? Parece que eu acabei de deitar. Nossa, eu não quero trabalhar hoje. Cacete, que preguiça maldita, quantas horas eu ainda poderia dormir? Só mais uns minutinhos. Acho que vou colocar mais 9 minutos. Mas hoje eu tenho que fazer a barba. Acho que vou tomar café de pé na cozinha, aí dá tempo.

Um caos de sinceridade se instalou. Uma verdadeira devastação da privacidade.

O pensamento é traiçoeiro e, justamente por isso, até então ficava escondido dentro da nossa cabeça sem alguém para delatá-lo.

Não pense num abacaxi. Tão certo quanto o fato de que você leu essa frase, é certo também que sua mente ignorou esse pedido e imediatamente desenhou uma fruta na sua cachola. O pensamento é a coisa mais desobediente que existe.

E porque será que essa gente toda pensa baixarias quando quer se livrar de pensamentos? Basta não querer pensar bobagem pra toda sorte de besteiras invadir a mente.


Os casais olhavam um para a cara do outro na cama e imediatamente começavam uma conversa sem pé nem cabeça de revelações, comentários estapafúrdios, palavrões que cresciam exponencialmente até se tornarem verdadeiros arranca rabos sem fim. Claro que as mulheres se aproveitavam melhor da situação para tirar os maridos do silêncio habitual.

As famílias desciam assustadas para o café da manhã e iam enfiando pão e leite pra dentro da goela numa tentativa inútil de deter a fala desenfreada.

Telejornais, programas matutinos de receitas, transmissões de futebol, tudo virou uma grande piada cheia de vexames. Depois de revelações sexuais involuntárias vindas da língua solta de uma dessas apresentadoras loiras de programas infantis, as tevês acharam por bem preservar a integridade de seus profissionais e cancelar suas programações até que a situação voltasse ao normal.

O Presidente da República veio a rede nacional declarar estado de calamidade pública. Antes de se despedir confessou que achava um saco ter que sair de casa fazer pronunciamento e que precisava colocar todo o congresso em quarentena se não ia pipocar escândalo pra todo lado. Acharam por bem nomear um deputado surdo-mudo como Presidente interino. Se o titular já falava sem pensar, imagina agora que falava tudo o que pensa.


Os cientistas, todos igualmente descontrolados, tentando separar as bobagens das teorias sobre o acontecido, passaram horas reunidos afim de descobrir o porque de tal surto e encontrar uma solução rápida para o problema. Tudo estava, claro, em algum lugar da cabeça, nalguma conexão involuntária que havia se estabelecido coletivamente, numa sinapse teimosa.

Alguns aproveitadores quiseram vender pílulas milagrosas nas ruas, garantindo que em poucas horas o problema estaria resolvido. Mas esqueceram de que era inevitável dizerem “trouxa” logo depois de concretizarem qualquer venda.

A tendência foi que todos os cidadãos se isolassem a espera de um tratamento que freasse o falatório. Os mais mente-sujas estavam apavorados. Falar baixinho, colocar esparadrapo, vestir capacete, pensar em frases pré-determinadas incessantemente, tudo valia pra não precisar ser tão honesto ou tão indiscreto caso fosse extremamente necessário algum contato.

Algumas pessoas tiveram idéia de colocar tapa-ouvidos. É, se não era possível parar de falar, se todos fizessem o pacto de não escuta, muitos problemas estariam sanados.

Aos poucos tudo foi ficando deserto nas ruas. A TV votou a transmitir mas sem programas ao vivo. Só filmes, reprises de novela ou coisas do gênero. O Jornal nacional foi uma seqüência de telas com as notícias escritas. O assunto, claro, era um só.

Veio a noite e, com muita dificuldade, todos dormiram. Justamente a hora de colocar a cabeça no travesseiro é que as pessoas mais pensam. E pra dormir faz se necessário um certo silêncio.

No dia seguinte, ao abrir os olhos, pensamentos novamente presos dentro da cabeça. O surto passou. Foram apenas aquelas 24 horas e tudo se foi da mesma maneira inexplicável como surgiu. E inexplicável permaneceu.

Palavra falada não volta mais pra boca. Muitos amores terminaram, outros tantos começaram, muitos foram demitidos, confianças foram quebradas, muitos segredos revelados, alguma vergonha foi sentida.

Desculpas foram ouvidas por toda parte. Uma cumplicidade quase suja que tomou parte de todos que falaram e ouviram bobagens.

Enquanto tudo voltava ao normal, em alguma nuvem acima do firmamento, o chefe entre os chefes andava preocupado, coçando a longa barba branca e arrastando sandálias de um lado pro outro.

- Onde diabos foi parar o programa de instalação que eu usei na Dercy Gonçalves heim? Não é possível que sumiu esse CD...

21 Comments:

Blogger Gatta said...

hahahahahahaha... eu tava numa vibe filosófica até o penúltimo parágrafo.

10:21 PM

 
Blogger ANNA said...

Tambem cheguei a achar que o papo era serio... So vc mesmo!!! hahaha

11:38 PM

 
Anonymous DD said...

Muuuuito bom! hahaha! E que Deus nunca encontre o tal CD! hahaha
Bjos!

11:45 PM

 
Blogger "a" MH said...

Adorei, beibe!!

9:25 AM

 
Anonymous Ciça said...

Cara, que criatividade!! Adorei!!! Espero que isso nunca aconteça!!!
Beijoo

1:00 PM

 
Blogger Ana said...

Adorei!!!
Seria bom um dia assim, sem papas na lingua e, consequentemente, sem hipocrisia!

1:46 PM

 
Blogger MH said...

HAHAHAHAHHAHAHA.
E todo mundo colocando a teta pra fora
hahahahahahahah

3:52 PM

 
Blogger Gastón said...

Ro, pior que esse soh o post da coxinha, lembra?

Anna, serio, eu? Nao nesse blog :0)

Pois eh DD, mas pelo visto caiu em maos erradas rsrs

Beibe, que bom :0)

Cica, eu tb espero do fundo do meu coracao que isso nao aconteca rsrsrs. Reparou que eu to sem cedilha neh?

Ana, seria bem perigoso isso sim. IMaginou o tanto de besteira que eu penso na hora de escrever?

3:53 PM

 
Blogger Gastón said...

MH, seu sem nocao, como assim? Hahahahaha

3:53 PM

 
Anonymous Anônimo said...

Um dos melhores textos que já li. Você escreve muito, mas muito bem.
Parabéns!
Ana RJ

5:01 PM

 
Anonymous Lunna said...

Eu acho que vc deveria parar de preguiça e escrever logo este livro que ta todo mundo esperando ! (Ops... acho que o efeito continuou em mim !!).
;-)

9:06 AM

 
Anonymous Fernanda Salgado said...

Ah! Então foi ISSO que aconteceu?!?!?

9:30 AM

 
Blogger Gastón said...

Ana RJ, obrigado :0) E esse blog é de vcs Anas mesmo (tem ana saindo pelo ladrão aqui)

Lunna, meu amor, quem me dera o problema entre mim e um livro fosse preguiça. quem me dera...

Fe, pois eh, viu soh? Rolou um ataque de sinceridadecoletivo rsrsrs

11:47 AM

 
Anonymous Ciça said...

Eu bem vi lá no blog do MH que vc tá indo pro lado negro da força...tá fudido!!! rs

1:13 PM

 
Anonymous Michel said...

O pior é quando ele começa a falar quando vc. está dormindo. Aí a casa cai.

Te indiquei.

1:27 PM

 
Blogger ANNA said...

ARRASOU, Gasta!
Muitíssimo bom!
Parabéns!

Mas... tomara que isso nunca aconteça de verdade, eu ia passar alguma vergonha com meus pensamentos ultimamente (lembra da ideia de trocar soja por amendoim, né? Pois é! - brincadeira eu ainda nem comecei a comer amedoim)

Beijooooo
(urb)Anna

4:08 PM

 
Blogger Re said...

Arrasou de novo...
Ótimo post.
bjs
Re

4:42 PM

 
Blogger MH said...

1) ué, não é a dercy que adora mostrar as...deixa pra lá
2) Adorei o lance da macumba por quilo.
3) Quem é essa tal de Cecília heim? .aff

5:21 PM

 
Blogger Gastón said...

Ciça, the dark side is strong.

Fala grande michel. Falar dormindo eh o perigo real meu amigo.

Anna, obrigado :0) Opa, segura esses pensamentos libidionosos aih rsrsrs.

Obrigado Re, que legal que gostou.

MH,

1) sim, a dercy adora mostrar a coleção de selos pros netinhos. é isso que vc ia falar né?

2)Vamos ficar ricos.

3)Ce o que?

8:14 PM

 
Blogger Claudia Aleixo said...

Que saudade!!! Adorei, gaston...muito bom! Voltei!! saudade!!! Beijos Enormes!

4:55 PM

 
Blogger Lala said...

Olha, são cinco pras cinco e eu acho um saco ficar aqui até umas sete e meia, oito horas pras pessoas pensarem que eu trabalho. Quando o cara que senta na minha frente olhar pra lá vou desentortar a alça do sutiã, que tá me machucando...

Adorei Gasta, de verdade.

4:55 PM

 

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