quarta-feira, março 12, 2008

Bom de cama.

Dorival sempre adorou dormir. Daqueles sujeitos que levantavam da cama e se despediam dela com carinho, coração partido e água (além de ramela) nos olhos.

- Ah minha caminha, mais tarde eu volto.

Arrumava os lençóis, já acertava o despertador pro dia seguinte e só então começava o dia. Dormir pra ele era um ato sagrado. E pra um sujeito de 45 anos que ainda morava com a mãe, tudo fica propenso mesmo a acumular um monte de frescuras, manias e caprichos. A Mãe, D. Geralda, ficava toda contente de ver o filhinho arrumando a cama todos os dias.

- Dodô sempre ajudou em casa, tesouro esse menino, é só não acordar ele que a vida aqui em casa é uma beleza, precisa de ver.

Antes de deitar tinha todo um ritual que o rapaz fazia pra garantir boas horas de sono. Jantava cedo, não se exercitava tarde (aliás, isso não era problema porque ele não se exercitava nunca), tomava pouco líquido pra não precisar fazer xixi no meio da noite e interromper o mais importante de tudo. Colocava tapa ouvidos, máscara nos olhos, fechava a cortina, trancava a porta, se efiava embaixo das cobertas e pronto: dormia exatas dez horas todas as noites.

Deu pra imaginar porque o Dorival ainda morava com a mãe? Sair a noite nem pensar. As más línguas dizem até que ele nunca "dormiu" com uma mulher. Mentira, o Dodô teve duas namoradas. Mas elas terminaram com ele porque depois do ato ele sempre virava pro lado e apagava. Ah Dorival...

Um belo dia, o homem chegou transtornado do trabalho. Tão transtornado que nem dormiu. A mãe ficou com medo de perguntar, mas no café da manhã, Dorival se abriu:

- Vou ser transferido.
- Transferido, meu filho?
- É mãe, vou ter que morar em São Paulo por seis meses.

Perder toda aquela mordomia, ter que morar sozinho num quarto e sala, ficar sem a comidinha da mamãe, numa cidade maluca e estressante que nem São Paulo. Pesadelo. Seis meses do mais puro pesadelo.

E não sobrou muito tempo pra acordar não. Em duas semanas lá estava ele num apartamento.

Na frente do prédio passava um viaduto. Abriu a janela do quarto e logo deu de cara um com daqueles ônibus articulados. Tão pertinho que se resolvesse se espreguiçar o coletivo parava ali mesmo pra ele subir.

Armou todos os preparativos habituais, com tapa ouvidos novos e tudo mais. Não adiantou. Noite em claro por conta do maldito Lapa 176 que ficava de vai e vem a cada meia hora. Isso sem contar os bebuns, carros, buzinas, ambulâncias.

Acostumou. Demorou um mês. Passou a primeira semana feito coruja. As outras com sono interrompido.

Barulho é assim mesmo, vai desaparecendo com o tempo dentro da nossa cabeça.

No mês seguinte inaugurou um bar de rock pauleira no térreo do edifício. De terça à domingo Black Sabath, Judas Priest, Iron Maiden, todos reunidos com os amplificadores no talo até as 2 da manhã. A cama do Dorival tremia.

Acostumou. Passou um nervoso danado no começo. Saiu na janela pra xingar, mas ninguém escutava por causa do viaduto. Nunca foi muito fã de metal, mas acabou transformando " Highway to Hell" em sua canção de ninar favorita.

No segundo mês, ao lado dos metaleiros, surgiu uma igreja evangélica. Cultos todas as noites, das oito às dez. Cantigos de louvor. Se até Deus escutava de lá de cima, imagina o Dorival que estava logo ali no quinto andar. Mas o problemão mesmo era a hora da saída dos religiosos e da chegada dos metaleiros. Um tal de baqueta e bíblia voando até baixar o camburão.

Dorival nem precisou acostumar muito. Já estava indo deitar-se mais tarde mesmo. Só carecia aumentar o volume da televisão.

Dali mais uns pares de semana, chegaram alguns tratores pra demolir seis sobrados que ficavam nos fundos do prédio. Iam lançar ali um novo empreendimento imobiliário. 3 dormitórios, ampla varanda, cozinha americana e muito, muito barulho de obra durante todo o dia.

Digamos que dessa vez o Doriva acabou aposentando o desperador. Pontualmente às 8 da matina batia a primeira estaca.

Em dezembro foi a vez da escola de samba começar a intensivar seus ensaios. Sim, a escola de samba, não falei dela antes? Embaixo do viaduto ficava o barracão do Grêmio Recreativo Escola de Samba Unidos do Passadão. Tava bonito o samba enredo deles. Um refrão que ficava na cabeça da gente. Mesmo depois da batucada acabar, aquilo não parava de martelar no pensamento.

O Doriva não ligou muito não. Um barulho a mais, um a menos. Quem ficou puto foi o dono do bar de heavy metal que acabou perdendo freguesia. Os tamburins atravessavam o compasso das guitarras distorcidas.

Faltando um mês pra voltar pra casa, mudou uma família de 3 filhos e um chiuaua pro andar de cima. É, só faltava mesmo um ruído vindo de cima pra completar o conto.

Uma vassouradinha no teto quando o casal se empolgava no sexo, uma interfonada quando a filha adolescente exagerava no som e uns xingamentos baixinhos quando o menorzinho resolvia andar de tonquinha com o chiuaua no encalço pelo apartamento.

- É, a gente se habitua.

Chegou finalmente o dia de voltar pra casa da mãe. Que alívio.

Dona Geralda fez macarronada pra receber o filho.

- Coitado do meu Dodô, tá com umas olheiras que chegam no joelho.

Dorival comeu, subiu, largou a porta aberta, e colocou 3 rádios em cima da prateleira.

Um na estação evangélica, outro na de heavy metal e o terceiro na de sambão. E dormiu.

Dormiu durante uma semana porque não escutou nenhum bate-estaca as oito da manhã.

16 Comments:

Blogger Gatta said...

Nada como ampliar os horizontes.

8:25 PM

 
Blogger Anninha said...

Concordo com Dorival e seu amor pelo sono, acho essa história de 8 horas de sono uma palhaçada, mas não consigo deixar a vida de lado e ir dormir cedo. Até a tv é muito melhor à noite...

11:36 AM

 
Blogger Virgínia said...

asdhuasduasdhuadh Eu sou como o Dorival, o ideal é pelo menos 10 horas por noite. E depois dessa gripe que me pegou de sola, 10 horas é pouco. Alíás, vou voltar para a cama é que lugar quente!

11:50 AM

 
Blogger ANNA said...

A gente acostuma mesmo com qualquer barulho...
Eu sou ótima de cama! Pode ter o barulho que tiver, pois se eu estiver mesmo com sono eu apago em 5 minutos (ultimamente eu tenho apagado em bem menos tempo, o somo é tanto que mal está dando tempo de colocar o segundo pé na cama!)
Beijo,
(urb)Anna

1:05 PM

 
Blogger fabiana said...

Arranjou namorada o Dorival?

2:47 PM

 
Blogger Cláudia said...

Na minha opinião, o pior deste conto é ter um chiuaua como vizinho de cima, com aquelas patinhas tec tec tec no assoalho.
beijo

6:55 PM

 
Anonymous Ana Carol said...

Olha, eu sou uma pessoa bem humorada na maior parte do tempo. Agora, se não dormir bem ou menos que 8 horas, sai da frente...

7:25 PM

 
Anonymous Aninha said...

ZZZZZZZZZZZZZZZZZ... vamo voltar pra cama? Sexta feira... chuvinha... friozinho... hummmmmm...
A gente descansa bastante e à noite sai! Que tal?
Bjossss

9:02 AM

 
Blogger Gastón said...

Gatta, mesmo que lá no horizonte tenha um trator.

Anninha, eu vivo esse dilema. Adoro dormir, mas não quero disperdiçar meu tempo. Já trabalho tanto, se dormir cedo vou ficar indo da cama pra agência, da agência pra cama.

Virgínia, 10 horas??? Benza deus heim? Rrsrs. Mas é bom de mais dormir, isso é verdade.

Anna, que beleza heim? Tive uma ex que era assim tb. Eu ficava lá, uma hora pra pegar no sono. E ela capotada.

Fabiana, esse aí dorme do ponto.

Clau, hahahaha, algum trauma? Bom é ter Cindy que anda com patinhas de gato sem fazer barulho.

Carolzinha, dormir menos de 8 horas vá lá, mas se me acordar, digamos, sem jeito, o bicho pega.

Aninha, nem me fala que eu dei uma de Dorival e dormi pra cacete essa noite rsrs.

10:37 AM

 
Blogger Rodolfo Barreto said...

São Paulo não deixa a gente dormir porque ronca pra cacete.

11:00 AM

 
Anonymous Ciça said...

Meu comentário de ontem sumiu!!! Vim ler a minha resposta e cadê???
Que coisa...

3:19 PM

 
Blogger Gastón said...

Rods, roncar é o de menos, foda são os peidos de baixo do cobertor.

Cicinha, nem registrou porque não chegou e-mail pra mim avisando :0( Deixa de novo vai...

5:10 PM

 
Blogger Cláudia said...

É que eu durmo com barulhão, mas não posso com barulhinho. Capaz de eu dormir pesado com um pastor alemão latindo na sala do que com o tec tec dum chiuaua.

Cindy Quebra Barraco manda dizer que gatos são mais legais e mais bacanas.

beijo

7:42 PM

 
Anonymous jujuperissinoto said...

fantástico, triste e real.
a droga é que a gente se habitua mesmo.

btw, belo blog, seu gasta ;)

12:51 AM

 
Blogger Gastón said...

Clau, Cindy só faz baruho quando derruba coisas :)


Jujubinha, vc por aqui? Quanta honra. E como se habitua. Eu que o diga com os geradores do Carrefour atrás da minha casa...

welcome ;0)

9:26 AM

 
Anonymous Anônimo said...

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6:51 AM

 

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